ENTREVISTA REALIZADA COM FRANCESC PETIT NO PROGRAMA BIOGRAFIAS

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O  publicitário e artista plástico Francesc Petit, sócio-fundador da agência DPZ, faleceu na última sexta-feira (06/09), em São Paulo, aos 79 anos. Petit é o “P” da DPZ, agência de propaganda fundada por ele em 1968 com os sócios Roberto Duailibi e José Zaragoza.

No programa de rádio Biografias, o brilhante Francesc Petit foi um dos meus primeiros entrevistados. Confira a transcrição da entrevista

Conte sobre sua infância?
Está cheio de pessoas que foram 20 vezes mais pobres do que eu e atingiram sucesso. A pobreza te ensina a valorizar as coisas. Para mim, tudo foi difícil. Com 10 anos  ajudava meu pai na serralheira. Vivíamos momentos terríveis da miséria espanhola. Foi o pós 2 º guerra mundial. Todo mundo passou miséria menos os franquistas. Nós éramos republicanos e não tínhamos nem água. Eu não tenho rancor dessa época, nem vergonha. Foi uma época que eu me diverti muito. Com 12 anos comecei a correr de bicicleta e freqüentar a escola de Belas Artes. Com 13 anos comecei a trabalhar durante o dia e a noite ia para a escola. De madrugada acordava as 4 da manhã para treinar bicicleta. Foi campeão da Catalunha duas vezes, vice-campeão espanhol.

Como foi sua chegada ao Brasil?
A sorte que eu tive de vir a São Paulo foi decisiva na minha vida. Era para a gente ir a Honduras. Minha mãe é hondurenha e já tinha acertado ir para lá. E Honduras é o fim da picada até hoje. Um dia veio um amigo médico jantar em casa. Ele tinha ido a São Paulo para um congresso e ficou falando maravilhas de São Paulo. Meu pai foi na agencia de turismo e trocou as passagens. Foi bom para mim e péssimo para a família. Meus pais nunca se entrosaram aqui. Eu por ser mais jovem tinha um raciocínio simples: ” fechei a Espanha e abri o Brasil”. Minha vida começou em 1950. Tudo para mim era novidade e maravilhoso em uma terra deslumbrante.

Tem que desprender do passado?
Deixei de lado que era catalão e conheci pessoas impressionantes. Freqüentei ” o Clubinho”, na rua Sete de Abril. Conheci Di Cavalcanti, Aldemir Martins, todos os escritores, cineastas. Gente maravilhosa. Fui na casa da Isabel Garcia e aquilo foi a porta do Brasil. Na casa dela iam os intelectuais de São Paulo: jornalistas, escritores, pintores. Você encontrava lá Rubem Braga, Vinícius de Morais. Os intelectuais gostavam de mim e eu deles. Foi uma grande oportunidade.

Você era interessante para conversas?
Eu fazia sucesso pelo meu jeito descontraído. Era bem informado de vários assuntos. Sai da Espanha publicitário aos 14 anos. Quando cheguei a São Paulo fui trabalhar numa empresa que fazia cartazes para vitrines. Entrei lá  e em um mês eu já era chefe. Eu sabia tudo melhor do que qualquer um. Eles não sabiam fazer letras diferentes, não sabiam tipografia. Mas o meu chefe judeu me pagava muito mal. Então eu fui procurar outro emprego em 1952. Era uma agencia de propaganda especializada em publicidade de cinema. Essa empresa era de um argentino chamado Vilaron. Um dia ele falou  para eu parar de desenhar porque dava muito trabalho. Era para pegar de revista e colar.

Qual fato mudou sua vida?
Nessa agência, tinham uns 6 ou 7 participando de um concurso de cartazes da Varig. O prêmio era muito grande. Eu fiz um cartaz muito bem feito e me inscrevi. Eu não sonhava que podia ganhar. Deixei lá o cartaz e esqueci. Um dia eu fui a Varig perguntar quem havia ganho o concurso. Uma moça disse que o ganhador não tinha deixado o telefone e endereço. Ela disse:  ” foi Francesc Petit”. Fiquei paralisado. Isso saiu em jornais e revistas. Com o dinheiro do prêmio consegui dar a entrada em uma casa para a família. A partir daí fiquei famoso e fui chamado para trabalhar na Thompson.

Que mensagem você passa para ” não se impressionar pela obra”?
Tem que ser débil mental o cara que pensa que ganhou um prêmio e é o máximo. Todo dia você nasce burro e acaba inteligente. Todo dia você tem que começar. Principalmente na arte, propaganda e literatura. Você pega uma folha branca e não sabe o que escrever. Chega o pedido: fazer anúncio para a Coca-Cola. As idéias são construídas devagarinho. A idéia está embaixo da mesa, está na sua frente. Não tem que olhar livros. O processo qual é : faça algo mais imbecil, idiota que lhe possa imaginar. É o primeiro tijolo.  Por exemplo: ” vendo batatas ou Olivetti a melhor do mundo “. É claro que você não vai fazer aquilo, mas a partir da primeira idéia, você começa a raciocinar para fazer daquilo algo criativo. Eu fico irritado porque a pessoa fica o dia inteiro procurando uma idéia no computador. A idéia é construída.

E a Macan Erickson?
O Jânio Quadros proibiu a propaganda em cinemas e eu perdi o emprego. Meu patrão, o Hélio, me recomendou para o presidente da Thompson. Foi um período muito agradável. Apesar da agência ser ruim como propaganda, tinha pessoas encantadoras trabalhando. Fiquei 2 anos e queria ganhar mais dinheiro. Tive uma oferta da Macan Erickson. Eles pagavam 5 vezes mais. Foram 4 anos de pesadelo. O pior antro que eu trabalhei na minha vida. Lugar baixo astral, pessoas esquisitas. Tinham grupos puxando o saco do presidente. Chefe de estúdio que me dava bronca porque eu gastava muito papel e lápis. Eu sempre fiz o que quis. Trabalhava para o cliente. O meu contrato estava amarrado a uma viagem a Macan de Nova York, para ficar um ano nos EUA. O presidente nunca cumpriu a promessa e eu fui embora. Voltei a Thompson. Comecei a olhar mais a cultura da propaganda européia, que é mil vezes melhor que a americana. Os grande publicitários americanos são todos ingleses.

Como surgiu a DPZ?
Sai da Thompson e junto com o Zaragoza resolvemos montar um pequeno estúdio em 1962, numa casa na rua Augusta. Era difícil pegar trabalho, ganhar dinheiro. Aos poucos fomos melhorando. Fazíamos tudo para a Olivetti, a Ford, a Fotóptica. Clientes bons. Mudamos para uma casa na Alameda Casa Branca e começamos a nos organizar como empresa. A gente arrumou um diretor financeiro, advogado que era procurador da república. Ele visitava clientes e a coisa começou a andar. Em determinado momento a coisa ficou tão grande que ele falou que deveríamos virar agência de propaganda. O Roberto Duailibi já fazia freelancer para nós como redator.  Em 1968 nós abrimos a DPZ. O Roberto era mais comercial. E tinha a força de trabalho minha e do Zaragoza.

Como surgiu o nome da empresa?
Quando alguém me pergunta que nome por,  eu digo “põe o teu nome”. Nada é melhor para o consumidor que o nome do dono. Essas companhias que põem nome difícil, esquisito é bobagem. O consumidor gosta de saber quem é o Samuel Klein, o Olavo Setúbal, o Walter Moreira Sales. Eu não gosto muito que me chamem de P da DPZ. Eu sou o Petit.

Como foi trabalhar com criação no período militar?
Eu vim de uma ditadura violenta na Espanha. Aqui a ditadura era uma brincadeira. Foi um regime autoritário que fez coisas feias. O Franco fuzilou 500 mil pessoas. Meu pai foi para ser fuzilado duas vezes. Arrastaram ele de casa de madrugada e quebraram toda minha casa.
Eu tive que depor num quartel aqui de Osasco porque alguém citou meu nome como amigo de um comunista. Eu fui depor e tratado como um príncipe. Na Espanha eu tinha 13 anos estava voltando para casa com um pão na mochila. A guarda civil queria me por na cadeia porque achavam que o pão era de contrabando. A ditadura de hoje é pior que a do passado. É a ditadura da corrupção e da maldade. Hoje morre mais gente no Brasil diariamente do que no Afeganistão e no Iraque. A corrupção é endêmica no Brasil. Vem de um espírito de macho. Que o macho precisa ter relógio de ouro e 3 Mercedes Benz.

Quais as suas principais realizações como empresário?
Eu criei a imagem de 3 grandes  empresas do Brasil: Itaú, Sadia e Gol Linhas Aéreas. O Olavo Setúbal em 1972 pediu para eu fazer uma imagem nova do banco. Eu falei que o nome Itaú não precisava de marca. Quando o nome tem 4 letras não tem leitura. O que eu fiz: uma pedra preta com o nome. Eu não criei nada. A marca já estava pronta. O garoto Bombril também fui eu que criei.

O empresário não está acostumado a mudanças?
As pessoas não tem consciência do mal que um logotipo ruim tem. Todas as marcas estatais  são horríveis: Petrobrás, Banco do Brasil. Foram feitas durante o regime militar. A Petrobrás foi nosso cliente. Eu fiz novos logos, desenhei os postos de gasolina, um trabalho inacreditável. Eu não consegui passar da secretária. Quem quiser mudar o nome da Petrobrás, mesmo o presidente, é demitido. Há 20 anos a Mercedes era carro de velho, do vovô. A Mercedes percebeu, foi comprar desenho na Itália e se rejuvenesceu.

O que você pensa sobre as crianças de hoje?
Crianças são mais inteligentes e rápidos do que os adultos. Criança hoje não acredita na escola. São lugares feios em que ela tem que ficar copiando num caderno. Num mundo que hoje tem computadores, escola é uma coisa muito antiga. E pega uma criança desenhando na aula, toma uma bronca do professor. Desenhar é mais importante do que escrever. Quando eu era criança na escola pública, era péssimo aluno. Só queria saber de desenhar. Sabe porque eu passava? Porque desenhava o que os professores não sabiam: a Grécia antiga, a chegada de Colombo, etc. Eu sempre vivi de desenhar.

Como a propaganda enfrenta os períodos de crise?
Numa crise, a propaganda é o melhor remédio. Você precisa movimentar as pessoas. Ela não serve só para vender um produto. Ela serve para animar a empresa e  construir a marca. Durante uma crise todo mundo se retrai então é o momento de fazer propaganda porque é muito mais barato. Seu anúncio aparece mais. É hora de fazer novas embalagens, novas marcas, lançamentos malucos. É a oportunidade de você mudar.


 

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